Morre Don Nelson, o técnico que nunca ganhou um título — e inventou a NBA que você assiste hoje

Morre Don Nelson, o técnico que nunca ganhou um título — e inventou a NBA que você assiste hoje

Segundo maior vencedor da história da liga com 1.335 vitórias, Nellie morreu aos 86 anos. Criou o ala-armador, escancarou a quadra e perdeu todas as finais que nunca disputou.

EsporteCidade ·

Tem um jeito injusto de resumir a carreira de Don Nelson: 31 temporadas como técnico principal na NBA, 1.335 vitórias, nenhum anel. Tem outro jeito, mais honesto: quase tudo que você vê num jogo da NBA hoje — quadra aberta, ala de 2,03 m conduzindo a bola, base sem pivô clássico, ritmo alto — passou pela cabeça dele primeiro. Nelson morreu no domingo (9), aos 86 anos, cercado pela família. A causa não foi divulgada.

O que aconteceu

A morte foi anunciada pela família e confirmada pelo Golden State Warriors, um dos clubes que ele comandou. "Na manhã de domingo, nosso amado marido, pai, avô e bisavô Don Nelson partiu em paz", escreveram os familiares em comunicado, dizendo que ele passou a última semana cercado de amigos.

Membro do Hall da Fama, Nellie dirigiu Milwaukee Bucks, Golden State Warriors (em duas passagens), New York Knicks e Dallas Mavericks. Fechou a carreira com 1.335 vitórias e 1.063 derrotas na temporada regular — número que o deixou como maior vencedor da história da liga até 2022, quando Gregg Popovich o ultrapassou. Nos playoffs, foram 18 participações e um retrospecto de 75-91.

Antes do banco, cinco anéis na quadra

Aqui está a parte que o resumo "nunca ganhou nada" ignora por completo: Nelson tem cinco títulos da NBA. Como jogador. Foram 14 temporadas na liga, 11 delas no Boston Celtics, e cinco campeonatos naquele elenco. O Celtics aposentou sua camisa 19 em 1978 — homenagem que, na história daquela franquia, não se dá por currículo mediano.

Ou seja: o cara já tinha resolvido a vida competitiva antes de virar técnico. O que ele foi buscar no banco foi outra coisa.

Don Nelson (1940–2026) em números
  • Como técnico: 31 temporadas, 1.335 vitórias e 1.063 derrotas
  • Posição histórica: 2º maior vencedor da NBA (foi o 1º até 2022, quando Popovich passou)
  • Times que dirigiu: Bucks, Warriors (2x), Knicks e Mavericks
  • Playoffs: 18 aparições, retrospecto de 75-91
  • Técnico do Ano: 3 vezes — 1983, 1985 e 1992
  • Títulos como técnico: nenhum
  • Títulos como jogador: 5, todos pelo Boston Celtics
  • Camisa 19: aposentada pelo Celtics em 1978

O ala-armador: a ideia que reorganizou o basquete inteiro

Nelson é o cara creditado por inventar o point forward — o ala-armador. A ideia parece óbvia hoje e era herética na época: em vez de a bola sempre subir pela mão do armador baixinho, por que não colocar a condução do jogo nas mãos de um ala grande, que enxerga por cima da defesa e ainda pode virar para a cesta?

Se você acompanha basquete moderno, acabou de reconhecer a descrição de metade dos melhores jogadores da liga nas últimas duas décadas. LeBron, Doncic, Jokic — cada um do seu jeito — jogam dentro de uma lógica que Nelson formalizou décadas antes de virar consenso.

O mesmo vale pelo "small ball", o basquete sem pivô clássico. Nelson tirava o homem grande, botava cinco jogadores capazes de driblar e arremessar, e trocava altura por espaço e velocidade. Levou porrada por isso. Hoje é o padrão de série decisiva.

"Enxergava possibilidades que os outros não viam"

Steve Kerr, atual técnico dos Warriors — e responsável por um dos times que mais lucraram com as ideias do Nellie —, resumiu bem: "Don Nelson foi um verdadeiro inovador cuja influência no basquete ainda é sentida hoje. Ele constantemente desafiava o pensamento convencional, experimentava diferentes formações e estilos de jogo e enxergava possibilidades no jogo que outros muitas vezes não viam."

O exemplo mais divertido dessa cabeça foi o "Run TMC", no Golden State do início dos anos 90: Tim Hardaway, Mitch Richmond e Chris Mullin correndo o tempo todo, num time que não tinha o físico dos gigantes da época e resolveu compensar com ritmo. Não ganhou título. Virou referência estética e tática que sobreviveu a todos os campeões daquela década.

O que fica pra quem joga e pra quem treina

A carreira do Nellie é o melhor argumento contra a régua do anel. Existe um tipo de treinador que ganha o campeonato daquele ano e existe outro que muda como todo mundo joga pelos próximos trinta. O segundo tipo raramente aparece na lista de campeões — e é o que mais deixa marca.

Pra quem joga basquete de quadra de bairro, o recado é ainda mais direto: altura resolve menos do que parece. Espaço resolve mais. Time de cinco caras que sabem driblar, passar e arremessar de fora incomoda muito mais do que time com um armador e quatro pessoas paradas esperando a bola. Isso não é modinha da NBA moderna — é uma ideia de 40 anos atrás que finalmente ganhou.

Don Nelson nunca levantou um troféu como técnico. Só reescreveu o jogo que todos os outros usam pra levantar o deles.

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