Makhachev diz que Garry não é seu maior desafio — e se entrega na frase seguinte

Makhachev diz que Garry não é seu maior desafio — e se entrega na frase seguinte

O campeão dos meio-médios faz a primeira defesa do cinturão neste sábado, no UFC 330, na Filadélfia. Prometeu vencer "facilmente", mas admitiu no mesmo media day quais foram as lutas mais duras da carreira dele.

EsporteCidade ·

Media day de campeão costuma render duas coisas: provocação genérica e frase feita. Islam Makhachev entregou algo bem mais interessante nesta quarta-feira, às vésperas do UFC 330. Ele disse que Ian Garry não será seu maior desafio no evento — e, três respostas depois, explicou exatamente qual é o cenário que o incomoda. As duas afirmações juntas contam mais sobre a luta de sábado do que qualquer cartaz.

A luta principal acontece na Filadélfia, com o cinturão dos meio-médios (até 77 kg) em jogo pela primeira vez desde que Makhachev subiu de categoria e tirou o título de Jack Della Maddalena. Os dois posaram para a encarada na estátua do Rocky, porque é a Filadélfia e as regras são as regras.

O que o campeão disse

Makhachev abriu com respeito de fachada e fechou com desdém explícito. "Não será o meu maior desafio. Ele é bom, eu o respeito. Ele tem boas habilidades, mas todo mundo conhece meu jogo. Vamos ver como ele se preparou para isso."

Depois veio a leitura técnica, que é a parte que interessa: "No peso-meio-médio, se você assistir à última luta, ele é mais um boxeador, mas acho que o Ian tem mais habilidades. Ele é bom na trocação. Ele tem uma boa defesa de wrestling. Mas ele tem alguns pontos fracos. Ele não é 100% completo como eu. Eu vi que ele tem uma boa defesa de quedas. Tenho algumas armas para derrotá-lo facilmente."

E o veredito sobre o estilo do irlandês: "Ele tem o mesmo estilo em todas as lutas. Ele só recua e fica buscando pontos. Não me lembro da última vez que ele finalizou alguém."

A frase que contradiz todas as anteriores

Perguntado se estava preparado para vencer em pé, caso a queda não viesse, Makhachev respondeu: "Assista às minhas lutas contra Volkanovski, contra Dustin Poirier. Eu posso trocar com qualquer um. Mas a maioria das lutas onde eu troco golpes são as mais duras para mim."

Leia de novo a segunda parte. O campeão acabou de dizer que Garry tem boa defesa de quedas, boa trocação e um estilo de recuar buscando pontos. E, na sequência, admitiu que as lutas em que ele fica no boxe são as mais complicadas da carreira dele. Junte as duas informações e você tem o roteiro exato de como o desafiante ganha essa luta: não deixar cair e fazer o relógio correr trocando de longe.

UFC 330 — Makhachev x Ian Garry: os dados da luta
  • Onde e quando: Filadélfia (EUA), neste sábado, no card principal
  • Em jogo: cinturão dos meio-médios (até 77 kg)
  • Primeira defesa de Makhachev na categoria
  • Como ele chegou ao título: subiu dos leves e derrotou Jack Della Maddalena
  • Segundo cinturão do daguestanês no UFC — leves e meio-médios
  • A leitura do campeão sobre Garry: boa trocação, boa defesa de quedas, sem finalizações recentes
  • A admissão: as lutas de trocação (Volkanovski, Poirier) foram as mais duras da carreira dele

Por que subir de categoria muda tudo (e por que ninguém comenta)

Makhachev construiu uma carreira inteira nos leves em cima de um jogo de chão que praticamente ninguém conseguiu resolver. O detalhe que o discurso de campeão esconde é que grappling não é uma habilidade absoluta — é uma habilidade relativa a peso, alavanca e envergadura.

Se você já treinou jiu-jitsu ou luta olímpica, sabe na pele: passar a guarda de alguém dez quilos mais pesado não é a mesma tarefa, mesmo com técnica melhor. Sete quilos de diferença de categoria significam adversários que aguentam mais tempo em cima, defendem a queda com mais base e custam mais energia para controlar. O jogo continua funcionando — só fica mais caro por round.

É por isso que a frase "tenho algumas armas para derrotá-lo facilmente" merece ceticismo. Ele já provou que o método funciona no peso novo, vencendo Della Maddalena. Mas primeira defesa é outro teste: agora o adversário estudou o Makhachev meio-médio, não o Makhachev leve.

O plano de Garry, escrito pelo próprio adversário

O irlandês tem um estilo que o campeão descreveu com desprezo — "recua e fica buscando pontos" — e que é, ironicamente, a receita mais chata de enfrentar para um lutador de queda. Quem recua obriga o wrestler a entrar avançando, ou seja, a entrar na distância de contra-golpe. Cada tentativa de queda mal calculada é um jab na cara ou uma joelhada na subida.

A crítica sobre não finalizar é justa em termos de espetáculo, mas irrelevante para o resultado. Ganhar nos cartões conta o mesmo que ganhar por nocaute na hora de levantar o cinturão. Se Garry sobreviver aos primeiros dois rounds de pressão de queda e levar a luta para os assaltos finais em pé, ele vira favorito — segundo a lógica que o próprio Makhachev descreveu.

O que assistir sábado (e o que isso ensina a quem treina)

O ponto de virada estará no primeiro minuto de cada round: quantas vezes Makhachev tenta a queda e quantas ele consegue. Se a taxa for alta, é luta curta. Se Garry defender três, quatro entradas seguidas, o campeão vai ter que decidir se aceita trocar — o cenário que ele próprio classificou como o mais duro.

Para quem treina, a lição vale muito além do octógono: o adversário quase sempre diz onde é frágil. Não na provocação, que é marketing, mas no comentário técnico solto, quando ele explica o que já deu trabalho. Escute a parte chata da entrevista, não a manchete.

Makhachev prometeu ganhar fácil. E na mesma tarde entregou o manual de como não deixar isso acontecer.

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