Ippon e assunto encerrado: Bia Souza fecha Lima com 11 medalhas do Brasil

Ippon e assunto encerrado: Bia Souza fecha Lima com 11 medalhas do Brasil

A campeã olímpica de Paris 2024 venceu a italiana Asya Tavano por ippon e liderou um domingo em que o Brasil levou cinco das seis medalhas em disputa no Grand Prix de Lima.

EsporteCidade ·

Tem duas maneiras de ganhar uma luta de judô. A primeira é somar vantagens, controlar o ritmo e torcer para o relógio acabar do seu lado. A segunda é encerrar o expediente: um golpe, o adversário nas costas, árbitro estende o braço, acabou. Neste domingo em Lima, Bia Souza escolheu a segunda.

A campeã olímpica de Paris 2024 venceu a italiana Asya Tavano por ippon na categoria até 78 kg e faturou o ouro no terceiro e último dia do Grand Prix de Lima, no Peru. Não foi a única: no bloco final do domingo, o Brasil conquistou cinco das seis medalhas em disputa.

O dia em que sobrou pouco para os outros

Vamos ao inventário do domingo, porque ele é quase absurdo. Bia Souza, ouro nos 78 kg. Rafael Macedo, ouro nos 90 kg — e invicto no torneio, com a final resolvida também por ippon contra o moldavo Mihail Latsev.

Nos bronzes, o Brasil chegou a um cenário que só acontece quando um país tem profundidade de verdade: dobradinha na disputa pelo bronze dos 100 kg. Leonardo Gonçalves e Giovani Ferreira, dois brasileiros, um contra o outro, valendo o pódio. Luta equilibrada — como costuma ser quando os dois se conhecem de treino — e Léo levou a melhor no controle do ritmo.

Guilherme Schimidt (90 kg) precisou do golden score, o tempo extra em que o primeiro ponto encerra o combate, para bater o canadense Keagan Young e ficar com o bronze. Thauana Silva superou a venezuelana Karen Leon com um waza-ari na categoria acima de 78 kg.

A única que ficou de fora foi Karol Gimenes, nos 78 kg: chegou ao golden score contra a colombiana Brenda Olaya e tomou um contragolpe no tempo extra. É a crueldade específica do judô — no golden score, não existe "quase". Um erro e acabou.

Brasil no Grand Prix de Lima 2026
  • 11 medalhas no total, em três dias de competição
  • Domingo: 5 das 6 medalhas em disputa — 2 ouros e 3 bronzes
  • Ouros: Bia Souza (-78 kg), Rafael Macedo (-90 kg, invicto), Michel Augusto (-60 kg), Rafaela Rodrigues (-52 kg), David Lima (-81 kg)
  • Bronzes no domingo: Leonardo Gonçalves (-100 kg), Guilherme Schimidt (-90 kg), Thauana Silva (+78 kg)
  • Brasil liderou o quadro de medalhas já no primeiro dia
  • Bia Souza é campeã olímpica em Paris 2024

O que é um ippon, para quem só vê judô de quatro em quatro anos

Se você acompanha a modalidade apenas em ano olímpico, vale a tradução. O ippon é o nocaute do judô: vale a luta inteira e encerra o combate na hora. Sai quando o atleta projeta o adversário de costas no tatame com força, velocidade e controle — ou quando imobiliza por 20 segundos, ou quando o outro desiste numa estrangulação ou chave de braço.

Abaixo dele existe o waza-ari, meia-pontuação: dois waza-ari somados equivalem a um ippon. E existe o golden score, a prorrogação sem limite de tempo em que a primeira pontuação — ou a terceira punição do adversário — decide.

Por isso as duas finais brasileiras do domingo dizem mais do que "ouro". Ganhar por ippon numa decisão internacional significa que o atleta não administrou vantagem: entrou para acabar.

Como o Brasil chegou às 11

O torneio já tinha começado bem. Na estreia, Michel Augusto (60 kg) e Rafaela Rodrigues (52 kg) faturaram ouro, e Jéssica Lima (57 kg) ficou com o bronze — três medalhas no primeiro dia, o suficiente para o Brasil abrir na liderança do quadro.

No sábado, mais três, com destaque para David Lima (81 kg), que bateu o canadense François Drapeau marcando um yuko nos primeiros minutos e fechou o dia com ouro.

Três dias, três blocos de medalhas, cinco ouros. O padrão que salta aos olhos não é o brilho de um nome só — é a quantidade de categorias diferentes em que o Brasil colocou alguém no pódio.

Por que um Grand Prix importa mais do que parece

Grand Prix não tem o glamour de Mundial nem o peso de Olimpíada, e é justamente por isso que ele conta uma história melhor sobre o estado real de uma seleção. É onde a segunda linha aparece, onde o atleta testa a nova pegada, onde o treinador descobre quem aguenta três lutas duras no mesmo dia.

E há a moeda que ninguém vê na transmissão: pontos de ranking. O judô classifica para Olimpíada por acúmulo em circuito, não por seletiva única. Cada Grand Prix é uma parcela do financiamento olímpico de quatro anos depois. Quem sobe no pódio em Lima em 2026 está comprando cabeça de chave mais confortável em 2028 — e chave mais fácil, no judô, é literalmente o que separa medalha de repescagem.

O que isso diz para quem treina no tatame do bairro

O judô brasileiro é uma das poucas modalidades olímpicas do país que produz resultado com regularidade de relógio — e produz porque tem base larga: clube, colégio, projeto social, academia de bairro. Onze medalhas num Grand Prix não nascem de talento avulso, nascem de gente suficiente treinando para que sobre esse tanto de opção.

Se você tem filho no judô, ou está pensando em começar depois dos 30 (e dá, com adaptação de carga), o dado que interessa é esse: a dobradinha brasileira na disputa do bronze é resultado de sistema, não de sorte.

No fim, judô é o esporte mais honesto que existe: ou você põe o outro de costas, ou não põe.

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