Final 100% americana depois de 23 anos, e Swiatek reaparece numa decisão
Ben Shelton e Brandon Nakashima decidem o Masters 1000 de Montreal na primeira final só de americanos desde 2003. Em Toronto, Iga Swiatek chega à primeira final da temporada — e admite ser a mais difícil da carreira.
Duas semifinais no Canadá, dois roteiros opostos. De um lado, o tênis americano fez algo que não fazia desde que o iPod era novidade: colocou dois compatriotas na final de um Masters 1000. Do outro, uma jogadora com seis Grand Slams no currículo comemorou chegar a uma final como se fosse a primeira — porque, do jeito que a temporada dela vinha, quase era.
Tudo isso a duas semanas e meia do US Open, que começa em 30 de agosto. Se você acompanha tênis de longe e só liga a TV nos Slams, esta é a semana em que dá para ver quem chega inteiro.
Montreal: a final que o tênis americano esperava desde 2003
Ben Shelton derrotou o compatriota Learner Tien por 6-2 e 6-3, em 1h24 de jogo, e vai enfrentar Brandon Nakashima na decisão. É a primeira final de Masters 1000 totalmente americana desde 2003, quando Mardy Fish e Andy Roddick disputaram o título em Cincinnati.
Vinte e três anos. Para dimensionar: em 2003, nenhum dos dois finalistas de agora tinha nascido para o tênis — Shelton, canhoto de Atlanta, tem 23 anos hoje. O intervalo conta a história de um país que dominou o circuito por décadas e depois passou uma geração inteira sem conseguir empilhar dois nomes até a última rodada de um torneio grande.
Shelton chega defendendo o título conquistado no ano passado, quando o torneio foi disputado em Toronto — o Canadá alterna as sedes entre as chaves masculina e feminina. Ele soma 11 vitórias consecutivas em solo canadense e busca o quarto troféu da temporada, depois de Stuttgart, Munique e Dallas.
Os detalhes que a súmula não mostra
O placar contra Tien parece tranquilo, e não foi bem assim. Shelton havia perdido os dois confrontos anteriores contra o jovem de 20 anos e resolveu a partida num momento específico: venceu os quatro últimos games do primeiro set de forma consecutiva. Foi ali que a chave virou.
No segundo set, abriu 3-0 e precisou de atendimento médico por causa de um corte no cotovelo esquerdo — o braço do saque — sofrido depois de uma colisão com a parede de fundo da quadra. Voltou e manteve o controle.
Tien, por sua vez, sai com um dado que vale carreira: é o semifinalista americano mais jovem de um Masters 1000 desde Roddick, em 2002. Perder para o compatriota mais velho na semi de um torneio grande aos 20 anos não é fracasso — é agenda para os próximos dez anos.
- Montreal (ATP Masters 1000): Ben Shelton x Brandon Nakashima
- Semifinal: Shelton bateu Learner Tien por 6-2 e 6-3, em 1h24
- Primeira final de M1000 só com americanos desde 2003 (Fish x Roddick, em Cincinnati)
- Shelton: 11 vitórias seguidas no Canadá e caça ao 4º título de 2026
- Toronto (WTA 1000): Iga Swiatek x Elena Rybakina
- Semifinal: Swiatek venceu Svitolina por 6-3, 1-6 e 6-3, em mais de 2 horas e com 10 quebras de saque
- Rybakina eliminou Coco Gauff por 5-7, 6-2 e 6-2
- US Open: começa em 30 de agosto
Toronto: Swiatek volta a um lugar que era dela
Iga Swiatek derrotou Elina Svitolina por 6-3, 1-6 e 6-3 em mais de duas horas e chegou à sua primeira final da temporada. Leia essa frase de novo: a polonesa tem seis títulos de Grand Slam e não disputava uma decisão desde a vitória em Seul, em setembro do ano passado. Hoje ela é a oitava colocada do ranking.
"Não tem sido uma temporada fácil", disse depois do jogo. "Talvez tenha sido a mais difícil da minha carreira no tênis. Mas esta semana foi muito positiva e inspiradora. Mostra que é preciso seguir em frente, aconteça o que acontecer."
O adversário não podia ser mais simbólico. Svitolina, nona do ranking, era justamente quem vinha atrapalhando os planos dela: eliminou Swiatek nas quartas de Indian Wells e nas semifinais de Roma nesta mesma temporada. Terceira tentativa, primeira vitória.
Dez quebras de saque em três sets — o que isso quer dizer
O número mais revelador da partida não é o placar, é este: dez quebras de saque em três sets. Em 21 games disputados, quase metade terminou com o sacador perdendo o serviço.
Se você joga tênis no fim de semana, sabe o que isso significa na prática: o saque, que deveria ser a vantagem garantida de cada game, virou uma bola qualquer. Jogo assim é decidido por quem erra menos no fundo da quadra e por quem aguenta a montanha-russa emocional de perder o serviço logo depois de quebrar o do outro. Não é tênis bonito. É tênis de resistência.
Do outro lado da final estará Elena Rybakina, que virou o jogo contra Coco Gauff — perdeu o primeiro set por 7-5 e depois atropelou com dois 6-2. É exatamente o oposto estilístico: potência, saque pesado, pontos curtos. A decisão de Toronto opõe a jogadora que constrói o ponto à jogadora que o encerra.
O que essas duas finais dizem sobre o US Open
Torneio de quadra dura em agosto na América do Norte é o melhor termômetro que existe para Nova York — mesma superfície, mesmo calor, mesmo tipo de quique. Shelton chegar à final em casa, com sequência de 11 vitórias no país, e Swiatek reencontrar a rotina de jogar até domingo são dados que valem mais que qualquer ranking.
E há a lição que atravessa as duas histórias: no tênis, forma é uma coisa que se recupera jogando, não descansando. Swiatek passou meses fora das decisões e voltou a uma exatamente numa semana em que precisou de duas horas e dez quebras para sobreviver. Shelton venceu com um corte sangrando no braço do saque.
No fim, ganha quem consegue continuar jogando quando o jogo para de ser confortável.
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