Morre Franco Baresi — o zagueiro que ensinava o Milan a jogar xadrez atrás
Aos 66 anos, morreu o capitão de seis Scudetti e três Champions League que passou vinte anos provando que defender bem é ler o jogo antes dele acontecer — não correr atrás dele
Você que assiste futebol moderno e reclama de zagueiro que só sabe cortar bola e sair chutando sem plano sabe reconhecer, quando aparece, o outro tipo — o que lê o lance dois segundos antes de ele existir. Foi esse tipo que morreu nesta sexta-feira. Franco Baresi, capitão histórico do Milan, tinha 66 anos, e o clube confirmou a notícia numa nota que chamou o zagueiro de "coração e alma" da equipe rossonera.
O que aconteceu
A morte não foi um susto do nada. Em 2025, um exame de rotina identificou um nódulo no pulmão de Baresi. Ele passou por cirurgia, se recuperou, mas seguiu em acompanhamento oncológico — e a partir de um tratamento imunoterápico, a saúde começou a piorar. A notícia de sua morte já havia circulado de forma equivocada na quarta-feira, via jornal italiano, e foi desmentida pelo Milan na hora, que pediu respeito à família. Dois dias depois, veio a confirmação real.
O clube lembrou que a última aparição pública de Baresi tinha sido em um San Siro lotado, na cerimônia de abertura da Olimpíada de Inverno de Milão — evento que ele ajudou a tornar memorável. Uma despedida e tanto, mesmo sem saber que era despedida.
Por que ele foi diferente
Baresi chegou ao Milan aos 14 anos, ainda garoto, vindo de Travagliato — cidadezinha a 80 km da capital lombarda. Irmão mais novo de Giuseppe Baresi, que fez carreira do outro lado da rivalidade, na Inter, Franco ficou conhecido como "Piscinin" — "pequenino", em dialeto milanês. Estreou como profissional aos 17 anos e virou capitão aos 22. Para quem joga bola desde criança, virar capitão do time principal aos 22 não é sorte — é o clube te entregando as chaves da defesa inteira porque não existe ninguém que leia melhor o jogo.
O que fazia Baresi especial não era velocidade nem porte físico — era antecipação. Ele jogava de líbero numa época em que o líbero ainda definia o resultado de uma partida inteira: cobria espaço, comandava a linha, saía jogando como um meio-campista. Enquanto zagueiros da geração dele resolviam na base do carrinho, Baresi resolvia com posicionamento. Chegava antes. Sempre.
- Clube: Milan (único clube da carreira, 1978–1997)
- Jogos pelo Milan: 719 — recorde só superado por Paolo Maldini
- Campeonato Italiano: 6 títulos (1979, 1988, 1992, 1993, 1994, 1996)
- Liga dos Campeões: 3 títulos (1989, 1990, 1994)
- Mundial de Clubes: 2 títulos (1989, 1990)
- Seleção italiana: 81 jogos (1982–1994) — campeão do mundo em 1982, vice em 1994
- Bola de Ouro 1989: 2º lugar, atrás do companheiro Marco van Basten
Os números que sustentam a lenda
719 partidas com a camisa do Milan é o tipo de marca que hoje soa quase impossível — vinte anos de continuidade no mesmo clube, sem escândalo de bastidor, sem novela de transferência. Seis Scudetti, três Champions, dois Mundiais de Clubes. Pela Itália, foi campeão do mundo em 1982 — ainda muito jovem no elenco — e vice em 1994, quando a Seleção Azzurra perdeu a final para o Brasil nos pênaltis. Ficou de fora da Copa de 1986 por decisão técnica do treinador Enzo Bearzot — a única falha visível numa trajetória de outra forma impecável.
Depois de pendurar as chuteiras em 1997, o Milan aposentou a camisa 6 em sua homenagem — um gesto raro, reservado a quem realmente redefine uma posição. Baresi seguiu ligado ao clube: comandou as categorias de base entre 2002 e 2006, e desde 2020 ocupava o cargo de vice-presidente honorário.
O que fica para quem joga hoje
Se você joga zaga na pelada de domingo e ainda acha que defender bem é sobre força e susto no adversário, vale rever o que Baresi fazia: menos carrinho, mais leitura. Ele passou vinte anos provando que o melhor desarme é o que ninguém percebe — porque o atacante nunca chegou a receber a bola no espaço que devia. Isso não sai em estatística de finalização nem em compilado de highlights. Sai em resultado.
Baresi é eterno, disse o Milan na nota de despedida. Não é força de expressão vazia — é o tipo de frase que só cabe quando a carreira sustenta. Seis Scudetti, três Champions, uma camisa aposentada e vinte anos sem trocar de clube não deixam margem para discussão. No fim, alguns zagueiros marcam gol dos outros. Baresi marcava época.
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