873 mil maratonas depois, a ciência confirmou: homem quebra no muro duas vezes mais que mulher

873 mil maratonas depois, a ciência confirmou: homem quebra no muro duas vezes mais que mulher

Estudo publicado na Scientific Reports analisou 26 anos da Maratona de Berlim e achou 17,63% de quebra entre os homens contra 9,66% entre as mulheres. Entre os sub-3h, a diferença chega a seis vezes.

EsporteCidade ·

Você já viu — ou já foi. Aquele corredor que passa voando pelo quilômetro 10, sorri pra câmera no 21, e no 33 está andando com as mãos na cintura, olhando pro chão como se ele tivesse feito algo errado. Ele fez. Só que não foi no quilômetro 33: foi nos primeiros cinco. Agora existe uma amostra grande o suficiente pra provar isso, e ela também mostra quem quebra mais.

O que o estudo fez

Publicado na Scientific Reports, do grupo Nature, o trabalho analisou 873.334 participações na Maratona de Berlim entre 1999 e 2025. Não é enquete de fórum de corrida: é praticamente toda a história moderna de uma das maratonas mais rápidas do planeta. A pesquisa conta com a participação de Marília Santos Andrade, do Departamento de Fisiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Os pesquisadores definiram "quebrar" de um jeito objetivo: desacelerar 20% ou mais na segunda metade da prova em relação à primeira. É o famoso muro, traduzido em número em vez de sensação.

Os números, e eles não são sutis

Entre os homens, 17,63% quebraram. Entre as mulheres, 9,66%. Ou seja: o homem médio tem o dobro da chance de sofrer uma queda brusca de rendimento na segunda metade de uma maratona.

Antes que alguém diga "é porque tem mais homem inexperiente na prova": o estudo olhou isso. A diferença apareceu em todas as faixas de desempenho — e ficou maior no topo. No grupo que fechou a maratona abaixo de três horas, os homens foram cerca de seis vezes mais propensos a bater no muro que as mulheres do mesmo nível.

Isso derruba a explicação mais confortável. Se acontecesse só com iniciante, seria falta de preparo. Acontecendo entre gente que corre 42 km em menos de 3 horas, o problema não é condicionamento. É estratégia.

O muro da maratona em números — estudo Scientific Reports / Maratona de Berlim
  • Amostra: 873.334 participações entre 1999 e 2025
  • Critério de "quebra": desacelerar 20% ou mais na 2ª metade
  • Homens que quebraram: 17,63%
  • Mulheres que quebraram: 9,66%
  • Entre os sub-3h: homens ~6x mais propensos a quebrar
  • Queda do trecho 35–40 km vs. 5–10 km: 17,8% (homens) contra 12,6% (mulheres)
  • Distância da prova: 42,195 km

Por que o combustível explica metade da história

Aqui entra a parte de nutrição esportiva, e ela é mais simples do que os rótulos de suplemento fazem parecer. Seu corpo tem dois tanques principais numa maratona: glicogênio (o carboidrato estocado no músculo e no fígado) e gordura. O glicogênio é o combustível rápido, e é limitado — dá pra algo em torno de 90 a 120 minutos de esforço forte. A gordura é praticamente infinita, mas queima devagar.

O muro é, na prática, o momento em que o tanque rápido esvazia e o corpo é obrigado a rodar só com o combustível lento. O ritmo cai porque não tem como não cair.

Os autores apontam que mulheres tendem a usar proporcionalmente mais gordura como fonte de energia em exercícios prolongados — o que poupa glicogênio por mais tempo e empurra o muro pra frente. Não significa que a prova seja mais fácil pra elas, e a própria pesquisadora faz questão de dizer isso. Significa que a régua de eficiência energética é diferente.

A outra metade é comportamento — e essa você controla

O estudo levanta uma hipótese que qualquer pessoa que já largou numa maratona reconhece: homens tendem a começar mais agressivo, mais perto do limite, e pagam a conta nos quilômetros finais. As mulheres, em média, distribuíram o esforço de forma mais constante, com menos oscilação de ritmo.

Os parciais confirmam. Comparando o trecho de 35 a 40 km com o de 5 a 10 km, os homens ficaram 17,8% mais lentos. As mulheres, 12,6%. E a análise dos parciais de 5 km mostrou irregularidade maior no ritmo masculino ao longo de toda a prova.

"A maratona é uma prova de resistência, mas também de gestão", disse Marília Santos Andrade. "O corredor precisa tomar decisões o tempo todo: como largar, quando acelerar, quando poupar energia."

O que fazer com isso na sua próxima prova

A mensagem prática que os autores tiraram do estudo é quase provocativa: controlar o início da prova pode ser tão importante quanto treinar velocidade. Três aplicações diretas:

1. Largue mais devagar do que a perna pede. Nos primeiros 5 km você está descansado, com adrenalina alta e cercado de gente. Todo mundo se sente rápido. Esse é justamente o trecho em que o erro é invisível e a conta é postergada pro quilômetro 32.

2. Trate o carboidrato como parte do plano, não como emergência. Se o muro é depleção de glicogênio, esperar sentir fraqueza pra tomar o primeiro gel é chegar atrasado — quando o sintoma aparece, o tanque já está no fim. Estratégia de carboidrato durante a prova se define e se testa no longão, não na largada.

3. Treine o pace, não só o VO2. Correr rápido em treino curto é a parte fácil. Aprender a sustentar um ritmo específico por duas ou três horas — e resistir à vontade de acelerar quando ele parece confortável demais no início — é a habilidade que separa quem chega no 35 inteiro de quem chega andando.

Maratona não premia quem corre mais forte nos primeiros 10 km. Premia quem ainda tem o que dar nos últimos 7.

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