A Seleção de Ancelotti virou o Real Madrid — e Vini no meio é a chave contra o Japão

A Seleção de Ancelotti virou o Real Madrid — e Vini no meio é a chave contra o Japão

Com losango no meio-campo e Vinícius Júnior jogando por dentro, o Brasil de Ancelotti copiou o desenho que ganhou a Champions de 2024 — e leva esse molde para as oitavas em Houston, na segunda-feira

EsporteCidade ·

Quando o árbitro apitou o fim da fase de grupos, ficou claro o que Carlo Ancelotti andou fazendo nos bastidores: ele não montou uma seleção brasileira no sentido clássico do termo. Ele montou uma versão canarinho do Real Madrid que ganhou a Champions de 2023/24. Mesmo losango, mesma ideia, mesmo Vinícius Júnior jogando onde o italiano sabe que ele dói mais — por dentro.

Se você esperava o Brasil das pinturas e do drible na linha de fundo, talvez tenha estranhado. Esse time abre mão da bola contra adversário mais fraco, recua, e ataca na vertical como punhalada. É feio para o saudosista e eficiente para o placar.

O desenho: losango com Vini por dentro

Depois do empate com Marrocos, Ancelotti ajustou para um 4-3-1-2 em losango — ou um 4-3-3 com falso 9, dependendo de como a bola gira. A estrutura tem Casemiro como volante de marca, o cara que apaga incêndio na frente da zaga. À frente dele, Lucas Paquetá pela esquerda e Bruno Guimarães pela direita fazem o trabalho de pulmão.

Na ponta do losango, Matheus Cunha age como falso 9, recuando para o meio e abrindo o espaço que o ataque precisa. E na dupla mais avançada, Vinícius Júnior e Rayan exploram a profundidade. A mudança-chave foi tirar Vini da beirada e jogá-lo por dentro, entre o zagueiro e o lateral adversário — exatamente o terreno onde ele fez 24 gols numa temporada pelo Bernabéu.

Por que copiar o Madrid de 2024 faz sentido

A comparação não é firula de cronista. No Real campeão de 2023/24, Vinícius formava dupla com Rodrygo lá na frente, com Fede Valverde pela direita, Toni Kroos pela esquerda e Aurélien Tchouaméni de volante. Aquele desenho ganhou La Liga com 10 pontos de vantagem sobre o Barcelona e a Champions. Ancelotti pegou a planta da casa e construiu de novo, agora com camisa amarela.

A lógica é simples: Vini por dentro recebe lançamento e bola em profundidade, em vez de ficar preso à linha de fundo encarando dois marcadores. Ele vira finalizador, não só assistente. Os números da fase de grupos já mostram o efeito.

Vini no novo esquema — fase de grupos da Copa 2026:
3 gols marcados no período do ajuste tático
1 assistência para os companheiros
1 gol anulado de forma equivocada
2 chances claras desperdiçadas
Molde de origem: Real Madrid 2023/24 — La Liga (10 pts sobre o Barça) + Champions
Filosofia de Ancelotti: "Não quero uma identidade clara" — flexibilidade acima de esquema fixo

"Não quero uma identidade clara"

A frase de Ancelotti assusta quem cresceu ouvindo que time grande precisa de identidade. Mas o italiano sabe o que diz. "Não quero uma identidade clara" significa, na prática, que ele prefere se adaptar ao adversário a impor um padrão rígido. Contra time fraco, o Brasil entrega a bola e espera o erro. Contra time forte, fecha em bloco baixo e aposta na transição.

Foi assim no amistoso em que a França venceu por 2 a 1, em março — o Brasil recuou, sofreu, mas mostrou o plano. Não é covardia: é a aceitação de que o futebol moderno se ganha na transição vertical, mirando a velocidade de Vini e Raphinha, e não na posse pela posse.

O que muda nas oitavas contra o Japão

E aqui o esquema encontra o adversário ideal. O Japão, próximo rival nas oitavas, gosta de ter a bola e construir desde trás. Para o Brasil de Ancelotti, isso é um presente — quanto mais o Japão se expõe atacando, mais espaço sobra nas costas da defesa japonesa para Vini e Rayan correrem.

O confronto está marcado para segunda-feira, em Houston, e tem cara de jogo em que a paciência brasileira vai ser testada antes da facada final. Se o losango funcionar como funcionou contra a Escócia, o Japão pode passar a noite com a bola e ainda assim sair de campo derrotado.

Ancelotti não trouxe o jogo bonito de volta. Trouxe o jogo que ganha — e, em Copa, ninguém pergunta como foi o gol depois que a taça sobe.

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