Tour no 14 de julho: as montanhas voltam justo no feriado da França
A 10ª etapa cai no Dia da Bastilha e leva o pelotão a 166,6 km de Massif Central, de Aurillac a Le Lioran, com sete subidas e 3.800 metros de altimetria. Pogačar lidera de amarelo; a França sonha com uma vitória em casa no dia mais patriótico do calendário.
Tem data no esporte que carrega peso simbólico, e no ciclismo francês nenhuma pesa como o 14 de julho. É o Dia da Bastilha — o feriado nacional da França — e, desde sempre, o dia em que qualquer francês no pelotão daria um rim para vencer uma etapa do Tour. Neste ano, o roteiro caprichou: a montanha volta exatamente hoje, com uma tirada de 166,6 km pelo Massif Central, de Aurillac a Le Lioran.
Se você acha que 166 km é pouco, olhe a altimetria: 3.800 metros de subida acumulada — quase o mesmo tanto da etapa do Tourmalet, lá nos Pireneus. Traduzindo para quem pedala no fim de semana: é como subir a ladeira mais cruel do seu bairro umas quarenta vezes seguidas, com o mundo todo assistindo.
Um cardápio de sete subidas
A etapa engana no começo. São uns 65 km de terreno ondulado, quase um aquecimento, antes de a conta chegar. A primeira mordida é a Côte de Pailherols (3,3 km a 6,5%), só um aperitivo. Depois vem o prato principal: Col de la Griffoul (5,9 km a 6,7%), que não aparecia no Tour desde 1975, seguido do Col de Prat de Bouc e da Côte de Murat. Ao todo, são sete subidas catalogadas.
O ponto de virada tem nome e sobrenome: o Col de Pertus, 4,4 km a 8,5% de inclinação média, com o cume a apenas 14,5 km da chegada. É ali, naquela rampa que castiga a panturrilha, que um ataque para valer costuma nascer. Quem tiver perna sobrando espera esse momento para rasgar o pelotão.
• Percurso: Aurillac → Le Lioran, 166,6 km pelo Massif Central
• Altimetria: 3.800 m de subida — quase igual à etapa do Tourmalet
• 7 subidas catalogadas; a decisiva é o Col de Pertus (4,4 km a 8,5%)
• Amarelo: Tadej Pogačar (UAE), +2min42s sobre Vingegaard
• 3º na geral: Isaac del Toro (UAE), a 3min27s
• Verde (regularidade): Mads Pedersen (Lidl-Trek), líder folgado
• Numa fuga, um corredor pode somar até 33 pontos de montanha só hoje
Pogačar de amarelo, Vingegaard à espreita
No topo da geral, a novela de sempre. Tadej Pogačar (UAE Team Emirates-XRG) veste o amarelo com 2min42s de vantagem sobre o eterno rival Jonas Vingegaard (Visma). O esloveno reassumiu a liderança com um daqueles ataques de longe no Col du Tourmalet, na 6ª etapa — o tipo de golpe que decide um Tour antes da metade. Terceiro na classificação aparece o jovem mexicano Isaac del Toro, companheiro de Pogačar, a 3min27s.
Dois minutos e meio parece muito, mas na montanha vira fumaça em um mau dia. Vingegaard sabe que precisa atacar, e o Col de Pertus é o convite. A pergunta que fica no ar é a de sempre: alguém consegue tirar tempo de Pogačar quando a estrada aponta para o céu? Até aqui, ninguém conseguiu.
A briga paralela: o verde de Pedersen
Nem só de geral vive o Tour. Na disputa por regularidade — a camisa verde, dos pontos —, Mads Pedersen (Lidl-Trek) construiu uma vantagem confortável catando pontos nos sprints intermediários e segurando os rivais nas chegadas de pelotão em Bordeaux e Bergerac. Numa etapa de montanha como a de hoje, o verde tende a hibernar, mas Pedersen já fez o dever de casa nas semanas anteriores.
Por que uma etapa de meio de Tour importa tanto
Tem uma beleza escondida no Dia da Bastilha: hoje, um único corredor pode somar até 33 pontos na classificação de montanha — em tese, o suficiente para saltar à liderança dessa disputa mesmo sem ter pontuado nas nove etapas anteriores. É a prova de que, no ciclismo, um bom dia apaga meses de anonimato. É o azarão da fuga que vira herói nacional entre o café da manhã e o pódio.
Para quem pedala por prazer, fica a lição que o Tour repete todo verão europeu: a montanha não perdoa quem começa rápido demais nem premia quem guarda demais. Dosar é tudo — na estrada dos profissionais e na sua subida de domingo. No fim, o Tour de 2026 segue com um roteiro claro e um rei de amarelo. Mas é justo no 14 de julho que a França cobra sua parte da festa.
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