75 km na Mantiqueira: a maior ultramaratona da história da WTR
Largando às 4h da manhã em Itatiaia, Wellington Noronha cravou 9h11 e Ilma Ferreira dominou o feminino em 11h37 na estreia da etapa Agulhas Negras — 75 km pelo primeiro parque nacional do Brasil
Você que reclama do despertador das 6h para correr 8 km no asfalto, respira fundo antes de ler isto: teve gente largando às 4 horas da manhã para encarar 75 quilômetros de montanha. Na Serra da Mantiqueira, a World Trail Races (WTR) realizou a estreia da etapa Agulhas Negras e entregou o que ela mesma chamou de maior ultramaratona da sua história — mais de doze anos organizando prova de trilha, e nada tão grande quanto isto.
Correr no plano já testa a cabeça. Correr subindo e descendo montanha, no escuro, com o corpo pedindo para parar a cada curva, é outro esporte. E teve quem fizesse isso em pouco mais de nove horas.
Nove horas, onze minutos: a corrida de Wellington Noronha
No masculino, Wellington Roberto Noronha — apelidado de "O Presidente" — cruzou a linha de chegada em 9h11m12s. Pare e imagine: nove horas e onze minutos de esforço contínuo, subindo a Serra Negra, atravessando o Ruy Braga, contornando o Morro do Sino e passando perto do Pico das Agulhas Negras, um dos pontos mais altos do país. É maratona atrás de maratona, com montanha no meio.
No feminino, Ilma Ferreira de Moura Rangel completou os mesmos 75 km em 11h37m55s, dominando a prova de ponta a ponta. São quase doze horas em movimento — mais tempo do que muita gente fica acordada num dia inteiro de trabalho.
• Distância do Ultra: 75 km pela Serra da Mantiqueira
• Campeão masculino: Wellington Noronha — 9h11m12s
• Campeã feminina: Ilma Ferreira — 11h37m55s
• Largada: 4h da manhã, em Itatiaia (RJ) — chegada em Visconde de Mauá
• Palco: ~50 km dentro do Parque Nacional do Itatiaia, o primeiro do Brasil
• Internacionais: 26 atletas de 10 nacionalidades
• Estrutura: 74 pessoas de apoio, 21 especialistas de altitude, 18 socorristas e certificação Lixo Zero
Por que 75 km na montanha não é "correr mais"
Quem nunca fez trilha longa acha que ultramaratona é só maratona esticada. Não é. No asfalto, o pace é rei e o terreno é previsível. Na montanha, o relógio mente: você pode gastar quinze minutos para vencer um quilômetro de subida técnica e voar no seguinte na descida. O que manda é desnível, terreno e cabeça — nessa ordem.
Some a isso a largada de madrugada, o frio da Mantiqueira no fim de junho e a altitude perto das Agulhas Negras, e você tem um teste que é tanto físico quanto mental. Terminar já é vitória. Vencer em 9h11 é de outro planeta.
A operação por trás de quem corre
Prova grande não se faz só com atleta bom — se faz com estrutura de guerra. A organização escalou 19 coordenadores, 21 especialistas de altitude, 74 pessoas de apoio e 5 batedores de moto. Na parte médica, 18 socorristas, várias ambulâncias, 3 desfibriladores automáticos e uma equipe de resgate especializada. Não é exagero: em montanha, o socorro rápido é a diferença entre um susto e uma tragédia.
Teve ainda um detalhe que combina esporte com responsabilidade: a prova recebeu certificação Lixo Zero e contratou cerca de 90% da mão de obra na região de Resende. Correr na natureza sem deixar rastro e movimentando a economia local — é assim que trail de verdade se faz.
O que você tira disso para o seu treino
Não, você não precisa encarar 75 km amanhã. Mas o recado dos ultramaratonistas serve para qualquer corredor: constância vence intensidade. Ninguém completa a Mantiqueira treinando uma vez por semana e no impulso. Se você sonha em subir na montanha um dia, comece pelo básico — volume gradual, fortalecimento de pernas e cabeça treinada para o desconforto.
No fim, a distância assusta no papel, mas se resolve passo a passo — literalmente. Foi assim que Noronha e Ilma chegaram lá: um pé na frente do outro, montanha acima, até a linha de chegada aparecer.
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